A Tangerina Ponkan de Teresópolis, fruta símbolo da agricultura familiar na Região Serrana fluminense, deu um passo decisivo para conquistar um selo de origem reconhecida. A Cooperativa Coopvieira teve aprovado um projeto de pesquisa na Chamada FAPERJ nº 45/2025 – Programa de Apoio à Estruturação e Consolidação de Indicações Geográficas no Estado do Rio de Janeiro, iniciativa que vai financiar os estudos científicos necessários para o pedido de registro da futura Indicação Geográfica (IG) da fruta.
O projeto aprovado, intitulado “Tangerinas de Teresópolis: Terroir e Perfil Químico da Ponkan (Citrus reticulata Blanco) em Teresópolis-RJ para uma Denominação de Origem”, vai reunir por cerca de quatro anos pesquisadores e instituições de ensino, extensão rural e representação produtiva em torno de um mesmo objetivo: comprovar cientificamente o que produtores e consumidores já reconhecem informalmente — que a ponkan cultivada em Teresópolis tem sabor, aroma e qualidade próprios, resultado do terroir local, a combinação de fatores naturais e humanos que confere identidade a um produto agrícola.
Uma rede de instituições em torno da fruta
A pesquisa será conduzida em parceria entre a Coopvieira, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Rio de Janeiro (Emater-Rio), o Sebrae-RJ, a Secretaria Municipal de Agricultura de Teresópolis, o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural – Rio de Janeiro (Senar RJ) e o Sindicato Rural de Teresópolis. O acompanhamento de diferentes safras ao longo dos quatro anos de estudo é proposital: a ideia é garantir que os resultados reflitam características permanentes da produção local, e não apenas as condições climáticas de uma única colheita.
Paralelamente à pesquisa científica, o projeto prevê um conjunto de ações estruturantes para preparar o terreno da futura IG, entre elas:
- implantação de um caderno de campo para padronizar as práticas de cultivo entre os produtores;
- elaboração do regulamento de uso da futura Indicação Geográfica;
- desenvolvimento da identidade visual e da marca coletiva de diferenciação;
- fortalecimento da governança da cadeia produtiva;
- incentivo a novos produtos derivados da ponkan, ampliando as oportunidades de mercado.
A expectativa é que, ao final do projeto, Teresópolis reúna as condições para protocolar oficialmente o pedido de registro da Indicação Geográfica no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
Para Elaine Araújo, diretora executiva da Coopvieira, a conquista representa a realização de um sonho antigo dos produtores locais. “A Indicação Geográfica da Tangerina Ponkan de Teresópolis representa a realização de um sonho dos nossos produtores. Mais do que um selo, ela é uma estratégia de desenvolvimento para o território. Queremos que a Ponkan de Teresópolis seja reconhecida da mesma forma que grandes produtos de origem reconhecida no mundo, como o Champagne, mostrando que a qualidade, a tradição e o nosso terroir geram um produto único”, afirma Elaine.
Segundo ela, o cooperativismo é peça central desse processo. “Nenhum produtor conseguiria construir uma Indicação Geográfica sozinho. É através da cooperação entre agricultores, universidades, instituições de pesquisa e entidades parceiras que conseguimos transformar conhecimento científico em desenvolvimento econômico para todo o território.”
A diretora também destaca o potencial da I.G. para impulsionar o turismo rural e a diversificação de renda no campo. “O produtor deixa de comercializar apenas a fruta e passa a oferecer experiências, receber visitantes, vender produtos artesanais e desenvolver novos negócios. Hoje já vemos a Ponkan sendo transformada em doces, bolos, geleias, sucos, licores, sabonetes, velas e diversos outros produtos. A Indicação Geográfica tem potencial para impulsionar ainda mais essa diversificação, gerar emprego, aumentar a permanência das famílias no campo e fortalecer toda a economia local.

Teresópolis, a capital fluminense da ponkan
Os números explicam por que Teresópolis reúne as condições para buscar o reconhecimento. Segundo levantamentos da Emater-Rio, o Estado do Rio de Janeiro colhe atualmente mais de 35 mil toneladas de tangerina ponkan por ano, em uma área plantada de aproximadamente 1.566 hectares. A produção se concentra na Região Serrana, e Teresópolis é, isoladamente, o principal polo produtor do estado, respondendo por cerca de 9 mil a 10 mil toneladas anuais colhidas em mais de 400 hectares — praticamente um terço de toda a área cultivada no Rio de Janeiro.
Essa produção está nas mãos de mais de 120 famílias de agricultores, concentradas principalmente no Segundo Distrito do município, na localidade de Pessegueiros, região que já celebra a fruta anualmente na tradicional Festa da Ponkan, evento que reúne produtores e visitantes em torno da colheita e da identidade agrícola local.
O que prevê o edital?
A Chamada FAPERJ nº 45/2025 é o segundo programa da fundação estadual voltado especificamente para Indicações Geográficas, e conta com R$ 9 milhões em recursos do FATEC para financiar projetos em duas faixas: a Faixa A, destinada a novas candidaturas de IG — categoria na qual se encaixa o projeto da tangerina ponkan —, e a Faixa B, voltada à consolidação de IGs já apoiadas em edital anterior, de 2022.
Na Faixa A, cada projeto pode receber até R$ 400 mil, desembolsados em duas parcelas, para execução em até 24 meses (com possibilidade de prorrogação). Entre as exigências está a comprovação de articulação com pelo menos dez produtores no território da IG e, ao final do projeto, a formalização da entidade representativa e o protocolo do pedido de registro no INPI.
O cronograma da chamada prevê submissão de propostas entre 19 de janeiro e 31 de março de 2026, resultados preliminares em 15 de maio e resultado final em 25 de junho de 2026 — data a partir da qual o projeto da Coopvieira deve entrar oficialmente em execução.
Se tudo correr conforme o planejado, a Tangerina Ponkan de Teresópolis pode se tornar, nos próximos anos, mais um produto fluminense com origem certificada — ao lado de referências já consolidadas no país —, abrindo caminho para valorizar ainda mais uma fruta que já é, há décadas, sinônimo de identidade agrícola na Região Serrana do Rio.
Fonte: Richard Hollanda – Analista de Comunicação Sistema OCB/RJ