Notícias

Image
Cooperativismo
Economia
mulheres
Notícias
OCB
Rio de Janeiro
SESCOOP/RJ

Dia da Mulher: lideranças femininas fortalecem as cooperativas, diz pesquisadora

Ampliar a representatividade da mulher no cooperativismo é um passo estratégico para tornar o movimento mais diverso, legítimo e coerente com seus próprios princípios. A avaliação é da professora e pesquisadora Sandra Schmidt, que há mais de uma década se dedica ao estudo do modelo cooperativista e, no ano passado, concluiu doutorado sobre a diversidade de gênero nos conselhos de administração das cooperativas brasileiras. 

“Essa inclusão melhora a qualidade da governança, amplia a renovação de lideranças e fortalece a sucessão e a continuidade da cooperativa. Mas a questão não é incluir mulheres apenas por resultado. É incluir porque isso é o certo e, como consequência, a cooperativa também fica mais forte e mais sustentável”, afirma. 

Na véspera do Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, a especialista concedeu entrevista ao Sistema OCB sobre os desafios para aumentar a presença feminina nos espaços de liderança e como as cooperativas podem colocar esse compromisso em prática. 

sandra schmidt .jpg 1 1b88bSandra Schmidt, professora e pesquisadoraDoutora em Administração pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC/PR) e em Psicologia da Comunicação e Mudança pela Universitat de Barcelona, Sandra Schmidt também vivenciou o cooperativismo na prática, como colaboradora do Sescoop/PR. No começo de 2026,  um artigo de sua autoria sobre os fatores que favorecem ou dificultam a participação de mulheres nos conselhos de administração das cooperativas foi aceito para publicação na revista internacional Voluntas, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra.

Leia a entrevista completa: 

Sistema OCB: As mulheres hoje representam 42% dos cooperados e 22% das lideranças do cooperativismo. Por que é importante ampliar essa participação? 

Sandra Schmidt: Primeiro, por coerência com a identidade cooperativista. O cooperativismo se baseia em valores como democracia, igualdade e equidade, então ampliar a presença de mulheres na liderança é aproximar a prática desses princípios.

Segundo, porque essa é uma agenda alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável [ODS] da ONU [Organização das Nações Unidas]. Ou seja, não é apenas uma pauta interna do cooperativismo, mas uma agenda global de desenvolvimento. Além disso, essa consolidação exige mais do que presença numérica: exige criar condições reais para participação, influência e permanência das mulheres nos espaços de decisão. 

Como a presença de mulheres na liderança das cooperativas influencia a gestão e os resultados? 

Lideranças mais diversas tendem a ampliar perspectivas, reduzir vieses e qualificar a análise de riscos, prioridades e oportunidades. Isso impacta diretamente a forma como a cooperativa conduz temas como inovação, gestão de pessoas, relacionamento com cooperados e sustentabilidade do negócio. Na perspectiva de liderança estratégica, a presença feminina torna a liderança mais conectada com a realidade da própria cooperativa. No cooperativismo, isso é especialmente importante porque, na base de cooperados e na base de empregados, as mulheres já estão representadas. Ou seja, quando elas também estão nos espaços de decisão, há mais alinhamento entre a composição do quadro social e quem define seus rumos estratégicos.

Essa inclusão traz efeitos positivos: melhora a qualidade da governança, amplia a renovação de lideranças e fortalece a sucessão e a continuidade da cooperativa. Mas a questão não é incluir mulheres apenas por resultado, é incluir porque isso é o certo e, como consequência, a cooperativa também fica mais forte e mais sustentável.

Quais são os principais desafios para ampliar o número de mulheres na liderança no cooperativismo?

Com base na revisão da literatura científica que realizei com estudos sobre cooperativas de diferentes países, os principais desafios para ampliar a presença de mulheres na liderança aparecem em três níveis: pessoal, organizacional e legal. E esta não é uma realidade apenas do Brasil, mas um tema recorrente no cooperativismo global.

No nível pessoal, aparecem desafios como autoconfiança, percepção de capacidade para ocupar espaços de liderança e os estereótipos de gênero, que muitas vezes são socialmente reproduzidos e internalizados.

No nível organizacional, entram barreiras ligadas à cultura e às práticas da própria cooperativa, como regras internas, processos de escolha e sucessão, ausência de políticas de apoio e, em alguns casos, inclusão mais simbólica do que efetiva.

E no nível ambiental/legal, estão fatores mais amplos, como desigualdades estruturais de gênero, redes de apoio frágeis, dificuldades de conciliação entre trabalho, família e participação institucional, além de limitações de acesso a oportunidades de formação e desenvolvimento.

Como as cooperativas podem atuar para fortalecer a representatividade feminina no setor? 

É importante tratar esse tema como uma estratégia institucional, e não como uma ação pontual. O processo exige diagnóstico, compromisso institucional e mudanças concretas nas oportunidades, nas regras e nas condições de progressão. Alguns passos práticos para começar são: fazer um diagnóstico interno, assumir um compromisso institucional claro, investir em desenvolvimento de lideranças femininas com foco em equidade, dar visibilidade a referências femininas dentro da cooperativa e revisar regras e práticas internas de gestão e governança. 

Como desenvolver essas ações na prática? 

A cooperativa precisa olhar para os seus dados e entender onde estão as mulheres hoje: no quadro social, nas equipes, na gestão e na governança. Esse diagnóstico ajuda a identificar onde estão os principais gargalos. Em seguida, é importante transformar essa pauta em diretriz de gestão, com objetivos e ações concretas. A literatura mostra que políticas explícitas de igualdade de oportunidades fazem diferença.

Capacitação, mentoria, networking e preparação para cargos de gestão são ações importantes, mas não na lógica de “corrigir” as mulheres. O objetivo é ampliar acesso a oportunidades estratégicas, fortalecer trajetórias de liderança e reduzir desigualdades históricas de acesso, sempre junto com mudanças institucionais. Sobre a visibilidade, quando a cooperativa valoriza e torna visíveis as mulheres que já ocupam espaços de liderança, ela cria referência para outras e fortalece o efeito multiplicador. Por fim, é importante revisar critérios de escolha, sucessão, funcionamento dos conselhos e processos internos para identificar barreiras formais e informais. Também é essencial garantir que a participação feminina seja efetiva, e não apenas simbólica

Para contribuir com essa pauta, o Sistema OCB atua fortemente desde 2019 no fomento à criação de Comitês de Mulheres junto às suas Organizações Estaduais e suas Cooperativas. Um espaço permanente de participação para promover liderança feminina de forma estruturada e duradoura. Para fazer parte deste movimento busque pela sua Organização Estadual e acesse os materiais disponíveis: https://somoscooperativismo.coop.br/publicacoes-representacao/manual-de-implementa-o-de-comit-s-de-mulheres-nas-cooperativas.

Fonte: Somos Cooperativismo/Sistema OCB

Compartilhe